“in to” as ânsias sociais.


Nos últimos tempos tenho verificado, de forma quase imprevisível, que existe uma espécie de intolerância perante o livre arbítrio de cada um de nós.

No espaço de um mês, várias pessoas e em áreas totalmente distintas limitaram-se a emitir a sua opinião sobre algo ou alguém. Sem que nada o fizesse prever, receberam em troca ameaças, agressões verbais, e tudo isto vindo dos mais diferenciados quadrantes que funcionam como… uma espécie de pandilha, com tudo o que as pandilhas têm de pior e desta feita em português.

Alguns mascarados com nomes inventados e outros assumidamente anónimos, outros, muito mas mesmo muito raros, que dão a cara, embora por pouco tempo pois quase sempre por medo ou arrependimento apagam, ou melhor apagam-se. Há ainda outros que assinam numa perspectiva de guerra surda, uma cruzada individual sem interlocutores, porque só a sua própria opinião é válida.

Em quase todos estes casos podemos assistir a verdadeiros chiqueiros de palavras mal intencionadas, que na maioria das vezes nem têm nada a ver com o assunto em discussão, e que já estão no patamar da má educação e violência gratuita.

Sempre me considerei uma pessoa atenta e que tudo faz para, sem ajuizar, ter opiniões que sejam justas. Há quem me diga que sou “benevolente demais”, mas a verdade é que faço o exercício diário de ouvir e respeitar as opções e opiniões dos outros. Não é uma qualidade ou defeito, é assim. No domínio das opiniões, quando e se a minha é diferente da dos meus interlocutores, só a exponho se houver garantias que existem as condições necessárias para a transmitir.

Mas o que me tem vindo a incomodar é a forma leviana, radical e completamente desproporcionada com que as pessoas, falam, escrevem ou exercem qualquer outro tipo de comunicação, umas com as outras.

Pior … tenho a sensação que ficam felizes, dentro desta actividade azeda onde descarregam e destilam ódios em cima de fulano ou beltrano. E no seu pedestal interior estão par a par com Deus, com o seu Deus porque são pessoas de um Deus só para elas.

Enfim, não sou o exemplo da pessoa certinha e perfeita, e tenho amigos, conhecidos e anónimos, que correm riscos e dizem o que pensam! Independentemente de terem ou não expressão pública.

Todos temos qualidades e defeitos, e felizmente somos assim.

O que me deixa triste é a hipocrisia que reina, tão enraizada na nossa cultura, e a profunda falta de comunicação que impossibilita chegar-se ao respeito, porque estamos cada vez mais longe de consensos.

Quem não gosta de uma boa discussão? Eu gosto!

Mas as discussões têm regras, a principal das quais deverá ser sempre o respeito por nós que não é indissociável do respeito pelos outros. As discussões não existem para se ganhar ou perder, para bater mais do se leva, não é uma guerra sem leis. Existem para comunicarmos, para termos a oportunidade de aprender, crescer e viver … e sabe tão bem concretizá-lo com respeito por tudo e por todos.

 

Raquel Prates