Há uma solidão estranha que aparece na vida adulta.
Não é dramática.
Não tem lágrimas nem grandes gestos.
Mas está lá.
É uma solidão discreta que surge no meio de dias completamente normais.
No trânsito.
Num jantar com amigos.
Ou num domingo à tarde em casa.
É a solidão de quem tem uma vida cheia… mas sente um vazio difícil de explicar.
E de repente surge aquele pensamento:
será que alguém me conhece mesmo?
O meu mais íntimo eu.
Não a versão funcional, simpática, disponível, a que resolve tudo.
Falo da pessoa real.
Durante muito tempo pensei que a solidão era simplesmente falta de pessoas.
Mas não é.
A solidão adulta às vezes acontece quando há pessoas…
mas falta espaço onde possamos existir sem representar nada.
Fico muitas vezes com a sensação de que quanto mais forte uma mulher parece, menos as pessoas perguntam como ela está realmente.
A força transforma-se numa espécie de barreira.
Sem sermos fortes.
Sem sermos equilibradas.
Sem sermos a pessoa que “está sempre bem”.
Com o passar dos anos, as amizades também mudam.
Não por conflito.
Apenas pela vida.
As conversas tornam-se mais rápidas.
Os encontros mais raros.
As confidências mais cautelosas.
E um dia percebemos algo estranho:
há partes da nossa vida que já não sabemos bem com quem partilhar.
Talvez muitas mulheres tenham aprendido a cuidar de tudo.
Da casa.
Das pessoas.
Do trabalho.
E, quase sempre, das emoções dos outros.
Mas no meio disso tudo ficaram sem perceber onde colocar as próprias fragilidades.
Às vezes pergunto-me quantas mulheres sentem isto e não dizem.
Porque visto de fora tudo parece bem.
Tudo no lugar.
Tudo aparentemente a funcionar.
A vida está “arrumada”.
E no entanto existe uma pergunta que aparece de vez em quando:
onde é que eu posso ser completamente eu?
Sem explicações.
Sem filtros.
Sem máscaras sociais.
Talvez mais mulheres façam esta pergunta do que imaginamos.
E talvez a maior solidão seja mesmo esta: não saber a quem dizê-la.
