Tenho ( practicamente) 50 anos.
Logo, isto não é um texto de coaching, nem um manifesto de amor universal, nem um “a vida começa aos 50” com purpurinas.

É um manual prático para mulheres que:

  • já tiveram o coração partido (mais do que uma vez)
  • já viveram grandes histórias que não duraram
  • já fizeram escolhas péssimas, e outras “que arrefeceram”

 e, mesmo assim, continuam a acreditar que pode valer a pena gostar de alguém.
Não vamos romantizar: aos 50 já não temos a leveza dos 20, nem a ingenuidade dos 30.
Temos outra coisa: filtro.
E uma vantagem enorme: já sabemos que do outro lado da mesa também pode estar alguém com bagagem, medo, vontade – não um boneco, nem um vilão.

1. Ponto de partida: não estás desesperada, estás seletiva


Aos 50, não estás em “saldo de fim de estação”.

Estás numa fase em que:

  • sabes o que te irrita em cinco minutos
  • reconheces padrões tóxicos ao segundo ou terceiro encontro
  • já percebeste que paz vale mais do que “química de novela com drama”

 Primeira regra do manual: Tu não estás a pedir demais. Estás só a pedir o mínimo decente.

E esse mínimo inclui isto:

  • ser tratada com respeito
  • não ter de decifrar sinais contraditórios todos os dias
  • não encolher para caber na vida de alguém


Sim, do outro lado também há alguém a tentar perceber se aguenta voltar a sentir. Mas o ponto de vista aqui é o teu. Eheheheheheh


2. Antes de “ele”: o check-in que quase ninguém faz


Antes de entrares em modo dating, vale a pena parar e ser brutalmente honesta contigo:

O que é que eu quero mesmo agora?

  • companhia leve, sem grandes planos?
  • um namoro com compromisso?
  • só reaprender a sair, jantar, conversar?


O que é que está fora de questão?

  • faltas de respeito ou homens emocionalmente indisponíveis
  • jogos de desaparece-aparece
  • alguém que desvaloriza o teu trabalho, a tua idade, o teu corpo, os teus filhos, a tua rotina
  • Tenho espaço emocional para outra pessoa?

Porque se estivermos em modo:
“preciso de alguém para me salvar, distrair, anestesiar” qualquer pessoa que apareça corre o risco de virar remendo – e ninguém merece esse papel.


3. Onde se conhece alguém depois dos 50?


Aos 50, a fantasia do “vou conhecer alguém numa livraria” é bonita, mas… temos a vida que temos.

 

- Apps

Pois, também não me agrada. Sim, há clichés. Demasiados narcísicos, egos inflamados e homens com fotos de ginásio. Mas também há:

  • divorciados a recomeçar
  • viúvos a reaprender a estar com alguém
  • pessoas simplesmente normais, com vidas reais, horários e contas para pagar


Dicas práticas:

  • Bio curta e honesta, sem espiritualidade tóxica nem auto-ódio:

“50 anos, vida cheia, gosto de conversas com humor e alguma profundidade. Pouco drama, muito respeito.”

  • Foto: tu, como és agora, não em 2008.

Não precisas de currículo fotográfico, só de verdade com um mínimo de cuidado.

 

- Amigos & rede

Dizer de forma explícita:

Se conheceres alguém alinhado comigo, apresenta-me.”

Não é humilhação. É inteligência e até logística.

 

- Vida real

Eventos, jantares, viagens, cursos, caminhadas, exposições.
Não como “caça ao homem”, mas como vida tua.
Quanto mais estás em lugares que fazem sentido para ti, mais provável é cruzares-te com alguém que fale a mesma língua.


4. Primeiro encontro: menos teatro, mais realidade


Aos 50, já não temos tempo para auditions infinitas.

Regra base:

  • Primeiro encontro não é entrevista de emprego nem terapia intensiva.

Coisas simples que mudam tudo:

  • Escolhe um sítio onde tu estejas confortável (muito importante)
  • Mantém o formato curto: café, copo, passeio.
  • Se estiver a ser bom, prolonga. Se não, acaba ali – sem comunicado dramático.
  • Não despejes a biografia completa em modo vómito emocional.
  • Não o transformes em terapeuta, nem em auditório.
  • Repara como te sentes ao lado dele, não apenas no que ele diz:
        1.  Sentes-te à vontade?
        2. Estás sempre em modo “explicar-te”?
        3. Ficas mais pequena ou mais inteira?

        Se saíres cansada, confusa ou encolhida, a resposta está dada.

        E lembra-te: ele também está nervoso, também está a gerir expectativas, também tem medo de não estar à altura.
        Um date não é fácil.


        5. Bandeiras vermelhas… e só nervos normais


        Uma boa notícia: aos 50 o radar está muito mais afinado.
        A má é que, às vezes, está demasiado afinado. Com LED acesso.

         

        Coisas que são mesmo bandeira vermelha:

        • fala mal de todas as ex, sempre elas as “malucas”
        • é sistematicamente incoerente entre o que diz e o que faz
        • faz-te sentir “exagerada” porque pedes o mínimo (resposta, clareza, respeito)
        • desvaloriza a tua idade, corpo, vida, trabalho, filhos, amigos


        Coisas que às vezes são só humanidade:

        • está um bocadinho atrapalhado no início
        • demora a responder porque está a trabalhar (e não a fazer joguinhos)
        • não tem a mesma fluência emocional que tu – está a aprender


        Resumo:
        Protege-te, sim.
        Mas não transformes cada hesitação em drama épico. O objetivo é perceber se existe terreno comum, não fazer inquéritos da PJ.


        6. Expectativas altas? Ainda bem.


        Nós queremos:

        • química (não precisa de se um "daqueles!!!" fogos-de-artifício, mas tem de haver faísca)
        • respeito básico e consistente
        • alguém presente, não só encantador ao início
        • alguém com vida própria, mas que te escolha com intenção
        • alguém que não entre em competição com a tua história


        Não é pedir um milagre.
        É pedir o essencial para não voltares a encolher.

        Aos 50, a diferença é esta:
        já não estás à procura de alguém que “complete”, mas de alguém que acompanhe.


        7. Corpo, desejo e vergonha: assunto sensível, mas inevitável


        Os corpos mudam. Os nossos e os deles.
        A libido muda. As prioridades mudam.

        Ainda assim :

        • não tens de pedir desculpa pela tua idade
        • não tens de justificar o teu corpo
        • não tens de aceitar intimidade num ritmo que não é o teu
        • nem tens de fingir pudor se é isso que já não sentes


        Podes desejar alguém e ainda assim ter limites claríssimos.
        Podes ser sensual e discreta.
        Podes dizer: “Gosto de ti, mas não estou pronta para X.”


        Quem se assusta com isto não está preparado para uma mulher de 50.

        E, sim, ele também pode estar inseguro – com o corpo, com o desempenho, com a comparação com o passado.

        A empatia aqui não é para o "poupar", é para a experiência ser mais humana para os dois.


        8. Comunicação: dizer sem rodeios, sem crueldade


        Uma das grandes vantagens desta idade: já não há muita paciência para códigos.

        Frases que ajudam a manter a dignidade ( de ambos) :

        • “Não sinto que estejamos a querer o mesmo.”
        • “Gosto de ti, mas preciso de outro tipo de presença.”
        • “Não estou disponível para uma relação com este tipo de dinâmica.”
        • “Prefiro ser honesta: não senti aquela ligação romântica.”


        É mais elegante dizer isto cedo do que arrastar alguém num “quase” infinito.


        9. Quando não resulta: nem fracasso, nem tragédia – apenas vida


        Nem todos os encontros têm de se transformar em história.

        Alguns são:

        • só um bom jantar
        • um lembrete do que não queres repetir
        • treino para voltares ao mundo, sem ser através da memória do passado

         Aos 50, podes:

        • sair de algo que até é “bom”, mas não te alimenta
        • admitir que a outra pessoa é decente, só não é para ti
        • fechar a porta sem precisar de o transformar em monstro para te sentires melhor

        Nem tudo o que acaba é falhanço.
        Às vezes é só uma curva no caminho.


        10. No fim, é isto: não te traires – e não desumanizar o outro


        Resumindo:

        O amor não é um milagre reservado a poucas.
        É um encontro entre duas pessoas com bagagem, rugas, histórias e vontade de ainda viver coisas boas.

        Se não for este, virá outro.
        Podes estar sozinha e estar bem.
        Podes estar com alguém e ficar ainda melhor.
        Podes recomeçar as vezes que forem necessárias.

        O amor não acabou porque fizeste 50 anos.
        O que acabou – espero eu – foi a tolerância para relações pequenas demais para a mulher em que te tornaste.

         

        :)

        Raquel