Durante anos achei que a menopausa era uma coisa que acontecia às “outras”: às mães das amigas, às senhoras das revistas, a uma categoria vaga chamada “mulheres mais velhas”.
Fala-se quase sempre do mesmo marcador: “quando o período pára”.
Só que há uma parte de nós para quem esse sinal não existe — quem já não tem útero, quem deixou de menstruar por cirurgias, patologias ou tratamentos. Não há aquela data simbólica, não há o “foi ali que começou”. O corpo vai dando pistas soltas e nós ficamos sem legenda clara para as ler.
No meu caso, não houve “dia D”. Houve um acumular de pequenos episódios: o calor que aparecia no pior timing possível, o humor em montanha-russa, o sono aos bocados… e, sobretudo, aquela sensação estranha de ter a cabeça cheia de coisas e, ao mesmo tempo, não conseguir agarrar nenhuma. Durante muito tempo chamei-lhe “cansaço”, “stress”, “fase”. Só mais tarde tive coragem de lhe chamar pelo nome certo.
Percebi então que o problema não era “estar a ficar velha”, nem “estar a falhar”. Era o meu corpo a mudar de capítulo — sem manual de instruções, sem calendário óbvio, sem aquele marcador clássico do último ciclo. E eu podia ignorar, dramatizar, ou falar sobre isso.
Não em modo manual técnico, nem em tom de desgraça. Em registo de conversa honesta, com humor e com a elegância possível nos dias em que o cérebro está em buffering e o coração em modo “não tenho mais paciência para disparates”.
Não venho dar lições, nem substituir médicos, terapeutas ou o que cada uma escolher para si. Venho só pôr em palavras aquilo que tantas de nós sentimos e raramente dizemos em voz alta: o brain fog no meio da reunião, os calores que chegam em timing péssimo, a paciência que de repente tem limites e o corpo que decide ter outra edição — sem nos pedir opinião.
Se estas linhas servirem para uma mulher pensar “ok, afinal não estou maluca, isto acontece mesmo, e em quem não tem útero ainda é mais confuso de perceber” e rir-se um pouco de si própria pelo caminho, já valeu a pena. O resto vamos descobrindo juntas: com informação, com humor e, acima de tudo, com leveza e atitude.
Capítulo 1 — O dia em que o cérebro ficou em buffering
Não houve sirenes, nem música dramática, nem um médico a dizer:
“A partir de hoje está oficialmente na menopausa.”
No meu caso, começou em “coisas” aparentemente inofensivas.
Malta conhecida, conversa animada, no meu ambiente. Olho para uma cara que conheço há anos, sorrio, cumprimento… e o nome não vem. Nada. Zero. Como se alguém tivesse apagado um ficheiro da minha cabeça sem deixar rasto.
Fiz o que todas fazemos: continuei no automático.
“Olá! Está tudo bem? Há quanto tempo!”
Abraço, dois beijos, sorriso. Por dentro, o caos:
“Quem és tu que conheço tão bem? Onde é que te encaixo na minha vida?”
Saí dali a pensar que tinha sido um momento. Um dia cheio, demasiado estímulo, cansaço.
Só que começou a repetir-se.
A cozinha passou a ser um sítio de experiências quase metafísicas:
entrava decidida e, a meio do caminho, perguntava-me:
“Eu vinha fazer o quê, mesmo?”
Ficava ali parada, com um pano na mão, como se alguém tivesse carregado no pause.
Depois havia o clássico do telemóvel.
Abro o Instagram com um objectivo muito concreto — procurar uma conta, rever uma mensagem, ver um assunto de trabalho. Três stories depois, estou a ver um vídeo de um cão a desfilar com um laço e não faço a menor ideia do que vim ali fazer. Fecha-se a app e fica a irritação.
Durante algum tempo (até bastante) pensei que era “mente dispersa”, ou “estou cansada”, e “ando a mil”. O pacote habitual que usamos para explicar tudo o que não sabemos muito bem nomear.
Eu conheço-me. Sempre tive cabeça de disco rígido gigante, 20 abas abertas, mil coisas a acontecer ao mesmo tempo – e, mesmo assim, nomes, datas, detalhes, tudo ali, pronto a sair. Sem esforço.
Agora, e de repente, era como se alguém tivesse instalado uma rodinha de loading no meio do meu cérebro.
E aqui entra a parte engraçada (ou não):
como não tenho útero, não tive direito ao “marcador clássico” – aquele dia em que o período falha, o ciclo pára e a pessoa pensa: “Ok, começou.”
Em vez de calendário, tive sintomas soltos, espalhados, sem legenda.
Mais calor aqui, mais sono partido ali, mais irritação acolá… e esse nevoeiro teimoso na cabeça.
A primeira reacção não foi nada romântica.
Foi violenta — comigo.
“O que se passa comigo??”
“Já não és como eras.”
“Perdeste rapidez de raciocínio.”
Nós sabemos ser cruéis connosco de uma forma que nunca seríamos com uma amiga. Uma amiga eu abraçava, diria: “Calma, estás exausta, isto passa, o teu corpo está a mudar.”
A mim mesma, não.
A mim, chamei disparates que nem se escreve.
Demorou até eu fazer uma coisa simples: parar para observar o padrão.
Quando é que o brain fog aparecia?
Quase sempre nos dias em que eu empilhava tudo: muito trabalho, pouca comida decente, zero pausas, noites mal dormidas, ansiedade em modo alerta, mais a tal dança hormonal que eu fingia que não existia.
Foi aí que se tornou óbvio: o meu corpo está em actualização.
As hormonas em modo reorganização interna, a cabeça a tentar acompanhar, eu a exigir-lhe performance de Fórmula 1 com o depósito na reserva.
Em vez de: “O que é que se passa comigo?”
Passei para: “O que é que o meu corpo me está a dizer?”
Quando mudei a pergunta, mudei a forma como me tratava.
Em vez de me insultar, comecei a editar a vida — como edito um armário antes de uma nova estação.
Se já não faz sentido, sai.
Se está a ocupar espaço e não serve, também.
Se aperta, por mais bonito que seja, talvez esteja na hora de largar.
Na prática, isto traduziu-se em coisas com muito pouco glamour, mas muito eficazes:
Passei a escrever mais.
Notas soltas, listas no telemóvel, pensamentos a meio da noite. Não como mania, mas como gentileza: tirar peso à memória, aliviar a pressão de ter tudo “aqui dentro”.
Passei a negociar comigo os dias.
Em vez de enfiar vinte tarefas numa segunda-feira e depois sentir-me um trapo porque não fiz tudo, comecei a escolher três coisas importantes. Três. O resto, se der, óptimo. Se não der, não é prova de falhanço, é prova de que sou humana.
Passei a aceitar que a frase brilhante às vezes chega atrasada.
Tenho, como toda a gente, o clássico momento “ahh era isto que eu devia ter dito!” horas depois da conversa. Está tudo bem. Nem sempre é preciso dizer a coisa perfeita na hora perfeita.
Não estou a dizer que, a partir daqui, tudo ficou maravilhoso. Não ficou.
Mas a narrativa mudou.
Deixou de ser: “estou a perder qualidades”
para passar a ser: “estou a atravessar uma fase, o meu corpo está a falar alto e eu preciso de ouvi-lo.”
E quando paro para ouvir, percebo outra coisa:
o brain fog não é só hormonal, é também consequência de uma vida inteira a querer dar conta de tudo.
Trabalho, casa, família, relações, expectativas — as nossas e as dos outros.
Chega uma altura em que o corpo diz:
“Se continuares a encaixar tudo, eu desligo. Tenho um sistema de segurança.”
A menopausa, para mim, começou assim:
não com um médico, não com uma data, não com uma estatística.
Começou numa noite em que não me lembrava do nome de alguém, continuou numa cozinha onde já não sabia ao que ia, repetiu-se num scroll infinito sem propósito.
O que mudou não foi só a química interna.
Foi o roteiro.
E tinha duas hipóteses:
ou fazia disto uma história de perda, de decadência, de “já não”;
ou transformava em oportunidade de afinar tudo o que vinha em excesso.
Foi assim que o Capítulo 1 se fechou: com a consciência de que o brain fog não veio para me humilhar.
Veio para me obrigar a escolher.
O que é que realmente merece a minha cabeça clara?
E o que é que já não merece nem um neurónio meu?
O resto da história continua no capítulo seguinte, quando este mesmo cérebro em actualização teve de ir trabalhar, sentar-se em reuniões, cumprir prazos… com a menopausa sentada ao lado!
Até lá
Raquel
