Há uma narrativa muito bonita sobre “reinvenção”: mulheres que largam tudo aos 40 ou 50, encontram a sua verdadeira paixão, abrem um negócio e vivem felizes para sempre.
Eu gosto dessas histórias.
Mas a minha não é assim tão redonda – e suspeito que a de muita gente também não.
Já fechei projectos, já perdi dinheiro, já tive de começar do zero quando pensava que já estava “instalada”.
Já fui “a da galeria”, “a da loja”, “a do digital”, “a das colaborações”, “a das curadorias”, "a da televisão".
E, no meio disto tudo, fui sendo sempre… eu, com todas as contradições.
O lado que não aparece no Instagram
Ninguém fala muito de:
- noites sem dormir a fazer contas
- reuniões em que te tratam como se estivesses a começar do nada
- explicares a pessoas que não vivem este meio porque é que não “arranjas um trabalho estável”
- a sensação de falhanço quando um projecto não corre como imaginaste.
Recomeçar depois dos 40 não é romântico.
Dá medo. É cansativo. E mexe muito mais com a nossa identidade do que aos 20.
Porque aos 20 estás a experimentar.
Aos 40/50 sentes que “já devias saber”.
A boa notícia: já sabemos mais do que pensamos
Ao mesmo tempo, há algo muito libertador em recomeçar com bagagem:
- já sabes com que tipo de pessoas não queres trabalhar
- já reconheces os sinais de alerta mais cedo
- já não toleras tanta falta de respeito
- já sabes o que o teu corpo aguenta e o que não aguenta
- e, sobretudo, já sabes o que é estar mal num sítio – e não queres voltar lá.
Quando olho para o meu percurso, vejo um fio condutor: arte, estética, palavras, imagem, emoção.
Mudam os formatos, mudam as plataformas, mudam as parcerias – mas há uma narrativa minha que se mantém.
Não preciso de “começar do zero”. Preciso de continuar, de outra forma.
Uma coisa que aprendi:
não estamos a começar do zero.
Estamos a começar de um sítio onde já há muita experiência, alguns traumas profissionais, uma certa rapidez em ler pessoas, e uma noção (dolorosa, mas útil) do nosso valor.
Reinventar depois dos 40 é mais: “como é que pego em tudo o que já sei, já errei e já fiz, e faço disto uma versão mais honesta de mim.".
Mais verdade, e menos romantismo. Ups.
O que ninguém te conta é que:
- vais duvidar de ti mais vezes do que gostarias
- vais comparar-te com quem parece “adiantado” na vida
- vais ter vontade de desistir num dia e planos grandiosos no dia seguinte
- vais ouvir opiniões não pedidas sobre a tua vida – e ter de aprender a ignorá-las.
Mas também:
- vais conhecer pessoas novas que entram na tua vida precisamente nesta fase
- vais descobrir que há espaço para novas versões de ti, mesmo quando julgavas que “o tempo já tinha passado”
- e, um dia, vais perceber que não querias regressar a nenhuma das tuas vidas antigas, mesmo que tenham sido importantes.
Recomeçar depois dos 40 não é um “plot twist” de filme.
É mais um capítulo longo, com partes aborrecidas, outras emocionantes, algumas dolorosas e umas quantas muito engraçadas.
Entre papéis, ideias, projectos, e uma vontade teimosa de continuar a fazer coisas belas, verdadeiras e úteis – mesmo quando o caminho não é óbvio.
Se estás nessa fase, a única coisa que te posso dizer é isto: não estás atrasada. Estás no teu tempo. O resto é ruído. :)
Raquel Prates
