(Sobre)viver no tempo Pós-Verdade: quando a emoção substitui o facto
Há uma sensação estranha no ar: a de que o mundo desaprendeu a confirmar coisas. Não é que a verdade tenha morrido. É que deixou de ser o centro da conversa. Passou a ser opcional, negociável, “depende”.
Chamamos-lhe pós-verdade, mas a expressão engana. Não significa “depois da verdade”, como se a verdade tivesse acabado. Significa um tempo em que, para muita gente, os factos deixaram de ser o critério principal. No lugar deles, manda o que mexe connosco: a emoção, o medo, a raiva, a pertença. A frase “eu sinto que é assim” ganhou estatuto de prova irrefutável.
E isto não vive só na política. Vive nas redes, nos grupos de WhatsApp, nas conversas de família, nos comentários apressados, nas certezas de vinte segundos. Vive no “vi um vídeo” dito como quem apresenta uma certidão.
A pós-verdade não é uma ideologia. É um clima mental.
Não tem um manifesto, mas tem hábitos fáceis de reconhecer.
O primeiro é simples: a pergunta muda.
Em vez de “isto é verdade?”, perguntamos “isto serve?”.
Serve para reforçar a minha visão do mundo. Serve para proteger o meu grupo. Serve para confirmar aquilo que eu já pensava ontem. Serve para eu não me sentir perdida.
Quando a utilidade vence a verificação, a verdade começa a parecer um detalhe técnico. E a mentira, se for bem contada, passa a ser “uma perspectiva”.
Porque é que isto acontece agora?
Porque estamos a viver num modelo de comunicação desenhado para a atenção, não para a verdade.
A atenção é o novo petróleo. E os melhores combustíveis para a atenção são os sentimentos fortes: indignação, medo, choque, humilhação, superioridade moral. A nuance não viraliza. A dúvida não dá likes nem viraliza, até porque “dá trabalho”.
E depois há a velocidade.
O mundo pede reacção imediata: partilha já, comenta já, decide já, escolhe um lado já. A verificação é lenta, e tudo o que é lento parece fraco num ambiente que recompensa rapidez.
A pós-verdade é, muitas vezes, isto: um ambiente onde a pressa é valorizada e o rigor é visto como pedantismo.
O que muda quando os factos perdem força
Muda quase tudo, mas em silêncio.
- A confiança quebra
Se ninguém acredita em ninguém, e se todas as instituições são “sempre suspeitas”, cada pessoa vira uma ilha. E numa ilha, a verdade é aquilo que eu conseguir defender mais alto. - A linguagem empobrece
Sem factos, ficamos com slogans. Sem slogans, ficamos com insultos. E quando a linguagem empobrece, o pensamento segue atrás. - A realidade fica emocionalmente instável
Hoje estamos “certas”. Amanhã estamos “escandalizadas”. Depois estamos “cansadas”. A nossa opinião passa a ser um reflexo do nosso estado, não do mundo. - A mentira torna-se prática
Não por maldade clássica, mas por conveniência. É mais fácil viver numa história simples do que num mundo complexo.
Como se fabrica “verdade” neste tempo
Há padrões. Reconhecê-los já é meio caminho.
- Repetição: o mesmo conteúdo aparece tantas vezes que se confunde com evidência.
- Recorte: um vídeo sem contexto, uma frase a meio, um print sem origem.
- Tribo: “se o meu lado diz, então é”.
- Emoção: “se me revolta, é porque é real”.
- Suspeita total: “se vem de X, é propaganda”, mesmo quando é verificável.
O truque mais perigoso é este: tratar factos como opiniões e opiniões como factos.
Quando isso acontece, discutir deixa de ser procurar entendimento. Passa a ser uma guerra de versões. E eu sinto que já há demasiadas guerras.
E então, o que fazemos?
Não há uma solução romântica. Há higiene mental :
Trocar urgência por método
Antes de partilhar, perguntar: “de onde vem isto?”, “há confirmação independente?”, “o que está a faltar aqui?”.
Treinar uma pergunta que muda tudo
“O que me faria mudar de opinião?”
Se a resposta for “nada”, talvez não seja opinião.
Separar notícia de entretenimento
Muitos conteúdos vêm com roupa de jornalismo, mas são apenas espectáculo. A diferença está nos detalhes: fontes, dados, correções, transparência.
Aceitar a nuance como maturidade
A vida raramente cabe em “sempre” e “nunca”. A nuance não é uma fraqueza.
Não confundir cinismo com inteligência
Duvidar de tudo pode soar sofisticado. Mas, na prática, é uma forma de desistência. O rigor é mais difícil, e por isso é mais valioso.
Talvez a maior ironia da pós-verdade seja esta: nunca tivemos tantos meios para verificar informação e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil desistir desse trabalho.
A verdade não é um troféu que se exibe. É um hábito.
Um compromisso pequeno, repetido: eu posso estar enganada, eu posso corrigir, eu posso esperar antes de reagir.
Num mundo que nos puxa para o extremo, escolher o rigor é um acto de liberdade. Mesmo quando ninguém quer saber porque não é cómodo.
A verdade não precisa de ser perfeita. Precisa de ser cuidada.
Porque quando desistimos dela, alguém escolhe por nós. E normalmente escolhe mal.
Raquel Prates
2026
